Depressão, com a Psicóloga Maria Luiza Carvalho

 em artigos

A vida vale mais (e muito mais)…

Por Maria Luíza Carvalho 

Maria Luiza Carvalho é psicóloga e criadora da Terapia Adventure. É Membro da Academia Trindadense de Letras ( Atleca), poetisa e professora universitária. Malu atua no Núcleo Aconchegar, em Goiânia.

“Uma pesquisa encomendada pela Federação Mundial para Saúde Mental avaliou 377 adultos diagnosticados com depressão e 756 médicos (clínicos gerais e psiquiatras) do Brasil, Canadá, México, Alemanha e França. De acordo com o estudo, intitulado “Depressão, A Verdade Dolorosa”,  64% das pessoas deprimidas relataram ausência no trabalho (uma média de 19 dias perdidos por ano) e 80% disseram ter a produtividade reduzida em cerca de 26%. A Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que até 2020 a depressão passará da 4ª para a 2ª colocada entre as principais causas de incapacidade para o trabalho no mundo. Estima-se que 121 milhões de pessoas, no planeta, sofram com a depressão – 17 milhões delas somente no Brasil e, segundo dados da OMS, 75% dessas pessoas nunca receberam um tratamento adequado.

Sem dúvida, trata-se de um estudo muito bem  fundamentado e de grande credibilidade científica, embora não tenha considerado aqueles profissionais que estão mais diretamente envolvidos com a Saúde Mental, como psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, assistentes sociais, enfermeiros e fonoaudiólogos, e tenha se centrado apenas nos médicos.

Tendo sido convidada pela redação do site para fazer uma abordagem, neste artigo, acerca da depressão, o chamado “mal do século”, optei, como profissional da área da psicologia, por falar de algo que é mais amplo e que envolve todas as causas e finalidades do bem-estar e da saúde: a vida.

Avalio que, no mundo contemporâneo, a perda do senso ético, moral e de justiça tem contribuído bastante para o processo da depressão. Perdemos a noção de valores. Há um enorme sentimento de vazio tomando conta  das pessoas. Os afetos não são os mediadores das relações. O  “ter”, ou melhor, o “parecer que tem” toma conta da verdadeira essência, ou seja, está no lugar do  ser. A vontade de se dar bem e de tirar vantagem de tudo é alimentada por uma competição desmedida. O mercado de trabalho exerce uma pressão cada vez maior na busca por resultados.

Nota-se um enfraquecimento das relações pessoais tanto na comunidade quanto na família. As pessoas não se sentam mais ao redor de uma  mesa para dialogar. Não colocam mais as cadeiras umas ao lado das outras nas calçadas para ”jogar o tempo fora”. A própria mobília está modificada. A mesa grande foi substituída pelos microcomputadores em cada quarto ou pelas tevês ligadas no Big Brother. Os filhos passaram horas nos jogos aparentemente inocentes de guerra, que, na verdade, passam uma mensagem subliminar de agressividade e de ódio.

As visitas, mesmo entre os familiares, precisam ser agendadas e com hora de chegada e de saída. Não há mais espaço ou tempo para a casualidade. Os diálogos se dão pelos teclados do pc. De forma alguma, sou contra o mundo virtual. Ele veio para somar, só que o ser humano está se permitindo ser engolido pela tecnologia. Está num mundo à parte, criando seu próprio isolamento. Encontra-se cada vez mais longe de Deus e, assim, longe também do seu mundo interno.

As pessoas se tornam, a cada dia, estranhas para si mesmas. As coisas mais simples da vida estão sendo deixadas para trás pela famosa frase “Não tenho tempo”. Mas o tempo é relativo. Cinco minutos de entrega verdadeira valem mais que anos de mera presença física.

Pôxa, meu caro leitor, não ter tempo para arrumar uma mesa de café para sua família, para seu amado(a) ou ainda  para visitar uma pessoa querida?! Não ter tempo para colher umas flores, colocá-las na mesa e declarar-se apaixonado(a) e feliz por dedicar um tempo para quem você ama e admira?! Não ter tempo para ler um poema, escutar uma música, fazer uma atividade física, uma simples caminhada no parque?! Não ter tempo para olhar para o céu, ver as estrelas, a lua ou simplesmente o brilho do pôr do sol?!

Imagino que você deve ser muito importante, ocupar um grande cargo. Sim, você deve ser insubstituível… Precisa correr com o trabalho da hora em que acorda até o momento em que desmaia em sua cama. Imagino seus sonhos, ou melhor, seus pesadelos de perseguição. Imagino suas frustrações… Mas, também, pode ser o contrário. Você se sente inferior por ocupar uma posição sem destaque algum no trabalho, na família ou na sociedade. Também posso imaginar suas frustrações e aflições…

Agindo desta forma, você, sem saber por que, começa a se sentir triste de um dia para o outro. Apresenta perda de interesse pelos convites para passear. Está sempre ansioso, irritado, com insônia. As  dores no corpo migram de um lugar para o outro, sem causa específica. Decisões que tomava com facilidade agora estão paralisadas. Perdeu o apetite ou começou a comer compulsivamente. A raiva e a mágoa tomam conta do seu ser. E o agravante é que, quando você reprime o que sente e o que pensa, isso indica que a sua autoestima está em baixa e que você não se conhece internamente. Pensamentos suicidas e negativos aparecem  com cada vez mais frequência. Se você acha que apresenta alguns desses sintomas, devo lhe informar que a depressão chegou ou está para chegar, às vezes, associada ao pânico.

Caso você tenha se identificado com esse relato, veja bem: não se isole. Procure conversar com alguém de sua confiança. Reforce seus laços familiares. Invente motivos para estarem juntos. Diversifique seus interesses. Procure lembrar de algum talento ou potencial seu que ainda não foi colocado para fora. Se gostar de pintar, pinte! Se gostar de bordar, borde! Se tocar algum instrumento, toque! Se preferir escrever, escreva! Se a sua preferência for cuidar das  flores, vamos lá, cuide! E, sobretudo, cuide-se.

Procure manter-se física e intelectualmente ativo. Procure um psicólogo, um médico. Assuma o problema. Enfrente a realidade! Você precisa de apoio. Hoje temos vários tipos de terapias alternativas (acupuntura, Reiki, auriculoterapia) que associadas aos medicamentos (os quais são apenas para alívio temporário) são satisfatórias. Desenvolva sua espiritualidade. Tenho observado verdadeiros milagres na cura das dores da alma em pacientes que enfrentam seus conflitos associando ao tratamento um processo espiritual baseado nas orações. A fé é a porta de entrada para a cura.

Gostaria ainda de falar aos colegas da área da saúde e da educação. Saibam acolher o outro. Sejam generosos. Desenvolvam uma melhor escuta terapêutica. Sejam mais  pacientes, tolerantes e gentis. Uma pessoa pode ser competente, mas, se não for generosa, será que podemos confiar nela? Faça um exercício de empatia e se coloque no lugar do outro. Crie laços. Entregue-se por inteiro ao que faz, pois isso, com certeza, já será uma grande contribuição. Desta forma, você também (por que não?) já estará  sendo vacinado contra o famigerado “mal do século”. Acredite na lei do retorno. Faça o bem de forma incondicional, pois em um momento de crise você poderá ser recompensado. Cuide bem da sua profissão. Tive um professor que sempre falava que nós, profissionais da área da saúde e da educação, não podemos deixar de nos cuidar. É uma questão de atitude.

A vida vale mais (e muito mais…)”.

 

Publicado Originalmente http://www.boavidaonline.com.br/depressao-com-psicologa-maria-luiza-carvalho/

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Comentários
  • Henri Hertz Monteiro de Aquino
    Responder

    Belíssima matéria. Passamos por grandes isolamentos e não percebemos o quanto isso é prejudicial.

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