Suicídio Entre Os Jovens

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Apesar das piadinhas e dos memes redes sociais afora banalizando o assunto, o Desafio da Baleia Azul também conseguiu despertar o olhar de boa parte da sociedade para o suicídio entre os jovens, provocando uma onda de questionamentos. Talvez o principal deles, seja: Por que os jovens estão cometendo suicídio no auge da vida?

O assunto é sério e merece que, especialmente os pais, se informem sobre todas as nuances que dão tom ao suicídio entre os nossos adolescentes. Pensando justamente em fazer uma leitura mais esclarecedora sobre o assunto, convidamos a psicóloga Maria Luíza Carvalho para a entrevista a seguir:

Aurélia Guilherme – Apesar dos índices alarmantes, o suicídio ainda está envolto à uma forte névoa na sociedade. Em contrapartida, o diálogo é, na maioria das vezes, nosso grande aliado. Na sua opinião, os pais devem falar sobre suicídio com seus filhos?

Maria Luíza Carvalho – As doenças emocionais devem ser tratadas com o mesmo rigor que as doenças físicas. Este é o principal conselho de Robert Paris, presidente do Centro de Valorização da Vida (CVV), que atua há mais de 55 anos na prevenção do suicídio.

No Brasil, suicídio mata mais do que os acidentes de trânsito. Por ano ocorrem cerca de 12 mil suicídios.

A família precisa, sim, ter um diálogo aberto, desde a mais tenra idade de seus filhos, para auxilia-los a nomear e a ter uma percepção de suas emoções e sentimentos. Assim, eles terão maior facilidade em diferenciar raiva, tristeza, zanga, alegria e medo. Precisamos ter uma educação voltada para as emoções. Uma verdadeira atitude altruísta da família ajuda a criança a crescer e a se colocar no lugar do outro, aprendendo a enfrentar as frustrações da vida.

Hoje, a demonstração de afeto está mais voltada para as coisas materiais. A sociedade de consumo traz muita infelicidade. Os pais devem se expressar pelo toque, pela atenção, pelo carinho.

Aurélia Guilherme – Como os pais podem identificar tendências suicidas em seus filhos? Que sinais merecem atenção?

Maria Luíza Carvalho – Quando a criança está com febre, é levada para um pediatra. Porém, quando o entrave é na área emocional, o pai e a mãe se paralisam. Há receio no enfrentamento da realidade. Em um diálogo informal, tido em uma caminhada, até mesmo indo até a padaria, ou no caminho da escola, a criança ou o jovem vai ter maior facilidade na exposição de seus medos e de suas angustias. Assim, aprende-se a lidar com os obstáculos do cotidiano, absorvendo a vida com maior leveza, em uma superação constante dos nossos limites internos e externos.

Hoje em dia, o suicídio ainda e tratado como tabu. Não é prudente minimizar as possibilidades fatais, como o dito popular: “cão que late não morde”. A família deve prestar a atenção em palavras do tipo: “não aguento mais essa vida”, “eu quero morrer”, “eu quero sumir”. Em mudanças repentinas de comportamento, aproxime-se e pergunte: – O que está ocorrendo? Desta forma, facilita-se a percepção de qualquer problema que possa estar se passando no íntimo da criança ou do adolescente, como o bullying, por exemplo.

Aconselho um diálogo sem falas prolongadas, mas que seja próximo e firme. Fale para seu filho ou filha: – “Quero ouvir você”. Tenha certeza que é a atitude de acolhimento que salva.

Aurélia Guilherme – Apesar de ser uma realidade, algumas pessoas ainda insistem em afirmar que a depressão, entre os mais jovens, não passa de uma “frescura”. Pode – se dizer que a depressão e o suicídio andam juntos?

Maria Luíza Carvalho – “O maior coeficiente de suicídio se dá por transtorno de humor, associado ao uso de substâncias psicoativas. Isso corresponde a mais da metade dos casos de suicídio. Depressão e consumo de álcool e drogas são responsáveis pelo maior número de mortes no mundo inteiro”, afirma o psiquiatra Jair Segal.

É uma questão social lidar com o suicídio, uma questão de cidadania. Sabemos que 90% dos casos podem ser evitados. Existe uma dor que é crônica e, tenha certeza que, a dor emocional contorna a dependência química. Mais de 30% estão com desamparo, desespero, depressão que somados, podem desencadear em morte. A criança e o adolescente deprimem por falta de autonomia. Desta forma, a causa do suicídio é multifatorial e não deve ser banalizada por memes que ironizam. O chinelo azul e o castigo corporal nada ajudam, nesses casos. É fato que ainda há muito preconceito com relação à doença psíquica.

Aurélia Guilherme – Que peso a vida atribulada dos pais e, por tabela, a ausência deles, pode exercer sobre o comportamento dos filhos?

Maria Luíza Carvalho – A dinâmica familiar mudou muito. A família não se senta mais em volta da mesa para realizar as refeições. Cada um com seu prato no quarto, em frente ao computador. A arte de conviver está sendo desafiada pelo individualismo e pelo egoísmo. Ressalto individualismo e não individualidade. Quando pais e filhos saem, cada um está com o seu celular à mão e o diálogo se torna monossilábico. Esse tipo de comportamento distancia o afeto.

A espiritualidade dentro do lar também está ausente. Há um vazio existencial que inverte valores familiares. Em contrapartida, os “Big Brothers” da vida e outros afins vão usurpando a formação de valores e de virtudes que integram o ser. Estamos na era da sabedoria. Há muita informação e evolução tecnológica que devem servir como aliadas e não como um elemento de separação e eliminação daqueles a quem amamos.

Aurélia Guilherme – Infelizmente nossos filhos não vêm com manual de instruções e não há receita pronta que facilite o processo de educar. Talvez isso justifique a razão de alguns pais acabarem se perdendo nessa verdadeira jornada, errando a mão no quesito permissividade. De que forma isso pode influenciar o comportamento adolescente?

Maria Luíza Carvalho – O grande educador Makarenko já escreveu há 100 anos: “Educamos a criança para ser o futuro cidadão do país, com autoridade, firmeza e constância”.

Atualmente a libertinagem é confundida com liberdade, como em uma alternância de valores. Honrar pai e mãe está em desuso e não é mais valorizado. Inverteram a pirâmide familiar: Os filhos gritam com os pais e dão o tom final da conversa. Porém, é necessário firmeza, com afetividade. Pai e mãe não podem abrir mão da autoridade na educação.

Aurélia Guilherme – E quanto aos pais muito exigentes?

Maria Luíza Carvalho – Ter autoridade, não é ser autoritário. É fundamental a resiliência, a flexibilidade e a abertura para verdadeiro diálogo com os filhos. Limites, normas e regras precisam existir. Porém, deve-se discutir e ponderar cada um desses fatores. O que vem acontecendo nos dias de hoje, até pela própria dificuldade e ausência dos pais, acaba deixando os filhos soltos e sem direção.

Assim como a total despreocupação faz mal, o controle exagerado e a proibição de tudo, não permitem o crescimento e a maturidade emocional do próprio filho. É necessário oferecer elementos de reflexão, para que o próprio filho saiba se proteger de tudo o que está em sua volta.

Aurélia Guilherme – O uso, cada vez mais precoce do álcool e das drogas pode ser um dos gatilhos para o suicídio entre os adolescentes?

Maria Luíza Carvalho – A sociedade ocidental, lida com o suicídio como um tema proibido, numa tentativa de negação da dor, do sofrimento e, até mesmo, da própria morte.

“O álcool e a droga provocam danos no sistema nervoso central e causam depressão, com as devidas consequências” – diz o psiquiatra Ricardo Nogueira.

A utilização do Álcool e das drogas, serve, muitas vezes, como forma de fugir dos problemas. Há um desejo de morte, que precisamos prevenir, incentivando o desejo de viver.

Os profissionais precisam estar atentos à prevenção, em uma abordagem interdisciplinar, atuando com a soma dos diferentes saberes.

É necessária uma atuação de agente matricial, que esteja atenta a 3 tipos de comportamentos:

ambivalência
impulsividade
rigidez

Assim, sem qualquer julgamento, aumenta-se a disposição e o desejo de viver.

“A única solução é a família voltar a dedicar mais tempo para seus filhos.”

Aurélia Guilherme – Muita informação truncada, mortes transmitidas ao vivo, Desafio da Baleia Azul… De certa forma, a internet banaliza o suicídio entre os mais jovens. Qual o impacto que isso pode ter na vida das crianças e dos adolescentes?

Maria Luíza Carvalho – Baleia azul não é um jogo! Na verdade, trata-se de mais uma forma macabra de abuso e exploração dos jovens, através de procedimentos de manipulação de consciências e comportamentos. Acrescento, ainda, algumas séries que estão invadindo a intimidade das famílias,como mero entretenimento. Porém, são séries que passam conteúdos ideológicos de permissividade. É a linguagem do jovem atual, que não encontra o respaldo naquilo que ele necessita.

Depoimento de um paciente, com as iniciais “D.R”:

Como paciente com transtorno de ansiedade e sintomas de depressão, posso dizer que, em grande parte, essas doenças se manifestaram em mim, pela sensação de que vivemos em uma época de perda de valores e de princípios. Vivo um enorme conflito por causa disso. Ao tomar conhecimento do conteúdo de algumas séries de enorme sucesso, esse sentimento de perda de valores se tornou ainda mais forte.

Nossa sociedade se acostumou com o absurdo, não tem mais capacidade de se indignar e de fazer uma leitura crítica. Dentre as séries de grande sucesso que eu poderia citar, estão Games of Thrones, House of Cards, Walking Dead, Breaking bad, Westworld e, mais recentemente, 13 Razões Por que. Tais séries são carregadas, em regra, de violência extrema, dezenas de cenas gratuitas de sexo quase explícito e personagens doentios com comportamentos patológicos, sem qualquer senso ético ou moral. Mesmo assim, são sucesso absoluto e seus fãs tecem elogios quase passionais sobre personagens, que deveriam gerar repugnância e indignação e, não, admiração.

O comportamento dos personagens é tão extremo e doentio que desvios de caráter “menores”, como adultério, ciúme, egoísmo e narcisismo começam a parecer normais. As cenas de violência e sexo também refletem o perfil psicológico dos personagens e são tão frequentes, que geram o sentimento da indiferença em muitos espectadores. São extremos que ganham um ar de normalidade. As pessoas se acostumam e perdem a sensibilidade. Apenas a título de exemplo, essas séries trazem cenas absurdamente reais e chocantes de estupro, suicídio, incesto, necrofilia e orgia.

Outra coisa que me deixa bastante chocado, é o fato de muitos adolescentes (alguns ainda muito jovens) estarem assistindo a esses conteúdos, sem que tenham capacidade de discernir o que é certo e errado. Fica a sensação de que as pessoas já não se sensibilizam mais com o absurdo e que tudo é válido para ter audiência; tudo vale, quando o objetivo é lucro. Em outras palavras, os fins estão justificando os meios. E isso é sinal de uma sociedade doente”.

Aurélia Guilherme – E quanto a tal Baleia Azul, que personalidade está por trás de um “jogo” como esse?

Maria Luíza Carvalho – Personalidades psicopatas estão por trás disso, lembrando bem que este não é um jogo, mas sim uma manipulação macabra.

Na foto, o russo Philipp Budeikin, 21 anos, criador do jogo de suicídio Baleia Azul. Segundo ele, os suicídios provocados pelo fenômeno virtual eram uma forma de “limpar a sociedade”.

Para o professor Pedro de Santi, que é psicanalista e Líder da Área de Humanidades, da graduação da ESPM-SP, diferentemente do que muitos pensam, o problema não é a tecnologia e o que ela proporciona, mas sim, a tendência dos pais estarem mais predispostos a controlar os filhos, do que realmente ouvi-los.

“A internet, em geral, não é boa nem má. Porém, entre o adolescente e a tecnologia, deve haver o gerenciamento dos pais. Deixar o filho solto não dá”. Mas, segundo nosso professor, também não é algo que possa ser feito de forma invasiva.

Volto a falar que é com o desfio do diálogo que vamos enfrentar tudo isso. Em contra partida se criou a baleia rosa, como forma de se fazer a escolha pela vida.

“Se essa ideia se repete tanto, provavelmente toca em medos fundamentais que carregamos. Seja por não sabermos lidar com nosso potencial e nossa autonomia; Seja por colocarmos interesses pessoais acima das necessidades dos filhos”, diz Daniel Martins de Barros, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC).

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